O Fim do Ciclo

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso.  Daí viver num asilo, até ser chutadopra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e seprepara para a faculdade. Você vai para colégio, tem várias namoradas, muitas,  vira criança, não tem nenhumaresponsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?  (Sean Morey)

Ana Elisa do Couto, ainda com muita lucidez e já com 77 anos de idade, viu sua tenaz e dura luta pela causa dos avós, realizada e oficializada pelo governo português. Foi publicada a decisão em Maio desse ano e logo em 26 Julho se realizou a primeira festa do DIA NACIONAL DOS AVÓS. Recebeu muitas felicitações nacionais e estrangeiras em especial de comunidades portuguesas. Como me transmitiu nesse dia dizendo que até do céu sentiu ter recebido de alguém essa alegria. Foi realizada essa grandiosa reunião de milhares de avós e netos onde senti que minha Mãe, vivia um dos seus dias mais felizes da sua vida. Nos dias que se seguiram, algo deveria
continuar... vamos partir para mundializar este dia !!! Mal pensou de imediato correu a fazer um rascunho que entitulou de Movimento Universal dos Avós em português e inglês. Foi passado a uma brochura que seguidamente começou a correr mundo através da internet, cartas enviadas a embaixadas e consulados assim como muitas e diversas comunidades.

Algures durante o mês de Agosto, cerca de um mês decorrido do da festa dos avós, minha Mãe me chamou e teve uma conversa longa comigo sobre a sua obra e na qual me endossou essa herança de ser seu seguidor e lutar sempre para que o Dia dos Avós se mantenha cada vez maior e o divulgue por esse mundo fora. De facto fiquei um pouco atónito com essa conversa e hoje continuo a pensar que estava a sentir no seu interior algo sobre o ciclo da vida. Quando era solicitada, continuou a estar presente em entrevistas, rejeitando as que foram recebidas  por canais televisivos, ela sabia a razão do gesto. Participar em colóquios e palestras e sempre com a ideia do seu Movimento Universal.

Mês de Novembro de 2003. Sofre um AVC muito acentuado que a leva quase à morte. Nova luta contra a essa realidade da vida, resistiu. Foi para um lar recuperar onde esteve precisamente um ano, vindo passar o Natal
de 2004 em sua casa. Ligeiramente afectada, encontrava-se bem, mas perdeu bastante da sua vida activa e intlectual. Eu e minha família fomos viver para junto dela, atendendo a que necessitava de cuidados e os podíamos dar. Durante os anos que se seguiram a sua actividade foi pouco notada, resumia o dia a dia a ver fotos do seus passado, sua familia, suas festas, etc.. Parece que era um tónico para sua recuperação e alegria pois, talvez com maior esforço, ainda rascunhava um ou outro texto, um dos quais o que se segue, embora ajudada «remendado» por mim, seu herdeiro ...

Sou mulher que nada tem;   Com muito pude contar;   Esposa, Mãe e Avó;   E também;   A felicidade de amar.   Muito tristes foram meus olhos;    Outonos já parecendo;   recordar que houve escolhos;    O caminho vai escurecendo. (Ana Elisa Couto)

Embora com bastante lucidez, algo faltava nas ideias, pensamentos e recordações de minha Mãe. Estavamos felizes pela sua recuperação e a tratavamos como uma raínha cuja honorabilidade deveria merecer, pois admirava uma senhora que nunca conheceu e a quem um dia dirigiu uma carta nesse sentido, raínha Juliana da Holanda,
tanto que foi quem escolheu para nome de sua primeira neta Iva (criança de cor que conheceu e ficou a gostar muito no seu período termal) e Juliana, pelo dito. Sua tendência política, embora muito discreta e sem expressões publicas, era monárquica!

Estavamos a entrar no mês de Outubro, mês de meus anos. Na humildade de sempre se festejou em família essa data e estavamos no final do jantar (nada comeu como sempre ao jantar, chã e tostas) e se encostou a mim. Então numa conversa alusiva a sua vida de escritora e poetisa popular, me segredou: Zé, escrevi, acho que sobre tudo de Penafiel, seus costumes e romarias, mas do nosso carmo e de Nossa Senhora que me lembre nunca
escrevi nada e fomos tão felizes lá, naquela casa onde teu pai fazia florescer a terra, criava centenas de galinhas e galos, dezenas de coelheiras, dos melhores melões que haviam...iam para Lisboa nos carros militares assim como todo o ano, flores. Foi nessa casa que nasceram tu e teus irmãos, Manuel Dilermando e Maria Julia e o tio «corceiro» saía sempre a cair de vinho a mais! Onde viviam muitas famílias pobres que muito ajudavamos e outras as quais julgavam ser nossos familiares.  Família Portugal cujos seus filhos vinham para nossa casa estudar e teu pai se zangava quando os erros eram repetidos no dia seguinte (!), mas outros, Manel da Alzirinha e sua futura
esposa, Nina e Neta do senhor Manuel farrapeiro, Lola e Carminha do «patarata», enfim, parecia um orfanato, mas onde havia alegria, sabedoria, amor..., nada que me lembre escrevi sobre essa riqueza da nossa vida no carmo. Ajudas-me?

Nesse carmo de muito amor;  onde ao mundo meus filhos dei;  fui feliz porque aceitei; também chorei; Mas
recebi como penhor; A bondade do meu senhor.

Esse senhor meu marido;   Pai dedicado e bondoso;  trabalhador fervoroso;   dedicado e muito querido;   respeitado e dadivoso.

Senhora do Carmo, venerei;   Mãe Carmela do meu lar;    As lágrimas que chorei;    A Ti implorei; Viver, receber e dar;   Poder tornar amar.

Minha Mãe, Ana Elisa do Couto que usava com orgulho, também, o nome de família de seu marido, Faria, nome pelo qual era conhecido, em meados do mês de novembro de 2007, uma noite fatídica quando se dirigia ao quarto de banho, fraquejou e caiu de joelhos, partiu um fémur e após muitas tentativas de a poder curar em sua casa, tal não foi possível por ter de submetida a cirurgia. Esteve internada bastantes dias no hospital de sua localidade e quando regressou foi recolhida para ter um serviço cuidadoso e atento no lar S.Martinho em Penafiel. Nós filhos diariamente, a visitava-mos e estavamos confiantes que mais uma vez a sua luta pela vida ia em bom caminho de
recuperação.

Dia 14 Novembro 2007. Ana Elisa, segundo relatório da assistente do lar, levantou-se cerca das 09.30h., muito bem disposta e após ir fazer sua higiene, tomou o pequeno almoço e como gostava de apreciar o que se lhe oferecia ao olhar, permaneceu a uma janela nesse alimentarde alma. Pelas 11.15h., uma outra assistente veio perguntar a minha Mãe o que desejava almoçar e onde o iria fazer. Informou o prato escolhido e disse que iria almoçar na cama. Calmamente recolheu ao leito e deitou-se...faltavem cerca de quinze minutos para o meio dia quando a assistente entrou no seu quarto para lhe colocar a mesa e o almoço escolhido...

Dona Ana Elisa do Couto Faria, tinha partido como um anjo...calma e com a doçura nas suas faces.

Estava eu a ler o jornal diário no café quando me telefonaram a comunicar esse desenlace. Fui com calma aparente para o lar, chegado me pediram para aguadar pois estava a ser preparada e ma entregaram na
capela do lar S.Martinho. Ali permaneci cerca de uma hora, sózinho, acho que recordando o que demos um ao outro, chorei porque quase nada lhe lhe e muito recebi. Assumindo seus desejos, transmiti-os ao responsável da trasladação e foi minha preocupação mandar vir o lenço de linho puro que existia em nossa casa, para cobrir aquele rosto lindo e que sempre denotou bondade.  Foi o fim de um ciclo com 81 anos e alguns meses...

Encontra-se em gavetão duplo no cemitério municipal de Penafiel ao lado de seu marido António Soares de Faria e simbolicamente com uma pequenina urna de seu filho Manuel Dilermando do Couto Faria.

Recordando um verso dos seus poemas

Mãe das Dores segui Teu Filho;    Até à hora da morte;  Junta e Ele estás no Céu; Oh., quem me dera tal sorte.