Procrastinação

Ana Elisa do Couto, excelente senhora, esposa e mãe, cuja bondade era evidente em todos esses seus
conceitos sociais, sempre procurou partilhar a abastança de sua casa assim como a sabedoria que na sua humilde criação lhe foi ensinada. Gostava de se relacionar criando muitas amizades dentro e fora do seu meio ambiente. Era estimada e querida em todo o seu seio familiar que abertamente recebia em sua casa com frequência.  Do mesmo modo com quem socialmente convivia, partilhava alegria e estava sempre atenta às dificuldades alheias e às quais procurava ajudar ou resolver. Tinha em toda essa benevolência a concordância de seu marido, homem militar de carreira que procurava que em seu lar nada faltasse e
para tal suas terras que ladeavam a casa, eram perfeitos jardins em todo a ano. Produtos hortículos para consumo da casa, flores todo o ano para oferccer, criador de capoeira com centenas de bicos, coelheiras repletas de animais e que por excesso de criação, todos os meses se davam a vizinhos carenciados, etc. 

Os três filhos do casal eram muito amados e acompanhados. Cresciam com a abundância que lhes era dada e com o decorrer dos anos começavam a ser definidos os caminhos do futuro.

Sobre esse futuro, escreveu William Shakespeare:

"Um dia a gente aprende a construir todas as nossas estradas no hoje; Porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão".

Com a melhor e mais intencional decisão para o futuro de seus filhos, mudaram-se para outra cidade onde havia melhores colocações e prosseguirem os estudos. Decorridos tempos, aconteceu a tal incerteza que esse futuro pode apresentar...

Seu nome, Manuel Dilermando que estava destinado a seguir os estudos militares, morre de acidente. A vida familiar a partir desse dia e durante muitos anos se esfumou ao ponto de quase chegar à ruína e os sonhos planeados, esses sim, acabaram completamente.

Anos decorridos onde Ana Elisa « A louca » começava a recuperar seu viver mas sempre agarrada a essa saudade do filho perdido. O luto esse era sua indumentária diária, mas o sentido de partilha e ajuda ao
próximo, iria continuar a ter, sempre com a anuência de seu marido, ainda militar.

Em finais dos anos sessenta começava a escrever seus primeiros poemas e cartas que serviam como o alento ao luto que não largava e ajudava a passar o seu dia a dia. Tudo o que escrevia era triste e de acentuada dor, mas era um tónico para regressar, por exemplo, ao que adorava e sabiamente sabia fazer numa cozinha... era a melhor e mais requintada cozinheira pra mim, seu filho e para quem visitava a nossa casa em especial a meu convite. Estas palavras resumem a linha que Ana Elisa iria ter no futuro, quer no que escrevia, pensava e decidia levar a cabo. Tarefa árdua, com muitas desilusões e desânimos, chorava, mas lutando sempre. Disse-me um dia...  "Isto è um sonho, bem sei, mas quero continuar a sonhar" Procrastinações.

A tristeza era sua companheira. A radiofonia do mesmo modo lhe fazia companhia em especial durante a noite e foi assim que diariamente ouvindo um programa matinal de uma senhora da rádio chamada OlgaCardoso, começou a fazer visitas aos estúdios onde a dita senhora desenvolvia essa actividade e desse modo se iniciou uma amizade longa e duradoura. No referido programa, conversas  sobre netos e avós começavam e ser frequentes e por tal a criar-se em Ana Elisa algo que a motivaria para uma longa caminhada, dura porque foi de facto, sozinha a desenvolvê-la.

Meados dos anos oitenta inscreve-se num programa matinal de Radiotelevisão. É aceite seu tema que seria falar sobre os Avós. Sua neta Iva Juliana com 12 anos a acompanhou aos estúdios e pela primeira vez aparece visualmente ao publico a falar sobre as suas ideias e ... nunca mais parou!

Tendo arranjado um excelente aliado, presidente da edilidade, Justino do Fundo que a incentivava e lhe dava todas as ajudas possíveis, teve neste bom presidente a abertura para começar a frequentar a Assembleia da Republica Portuguesa e lá deixar a políticos, deputadas/os e até assessores, os chamados seus processos onde já se incluíam bastantes cartas dirigidas a esses «senhores» e outros ligados à igreja ou figuras publicas.  Conforme seu álbum de fotografias, (galeria fotos no site) o seu primeiro forte contacto foi com Dr. Mário Soares, candidato a Presidente da Republica (1986). Do mesmo modo teve em particular uma conversa com sua esposa Dra. Maria Barroso a qual lhe prometeu por diversas vias, ajuda.
Durante os dois mandatos como presidente, estabeleceu muitas proximidades com ministros, secretários de estado e assessores do então primeiro ministro Aníbal Cavaco Silva. Seria exaustivo enumerar a todos os «processos» entregues a essa gentinha política. Todavia alguns devem ser referenciados devido a lhe terem prometido empenho, como Dr. Eurico de Melo, conterrâneo, Dr. Dias Loureiro e outros. C
hegam os anos noventa e ainda impera o mesmo governo. Realiza-se pela primeira vez uma festa local (Penafiel), organizada com o apoio da edilidade local (1992). Foi simples mas com muita adesão de concidadãos. A luta continua e começa a aparecer a data de 26 Julho em jornais diários onde seu nome é referenciado como uma lutadora com alguns anos de canseiras e já com duas deslocações à casa dos políticos na capital (Assembleia da Republica) acompanhada do seu amigo e incentivador Justino do Fundo. Este
seu grande colaborador perde o mandato em 1994 e segue-se novo presidente Agostinho Gonçalves. Embora com todo o apoio que continuava a ter do organismo câmara municipal, a colaboração pessoal continuou a ser relevante. O dia dos Avós nesta altura de mudança local, governo do país (António Guterres 1995-2002) e presidência da república (Dr. Jorge Sampaio), continua a realizar-se e cada ano passado, melhor no cartaz da festividade e na adesão de pessoas que já na altura se deslocavam de concelhos vizinhos. Mais contactos. Jorge Sampaio, este inclusive na sua própria residência aquando da sua campanha para o efeito, ministro Capoulas Santos e outros. Com as suas deslocações à A.R., ia criando conhecimentos a amizades com deputadas/os. Conforme seu historial (cartas e rascunhos neste site), dá pela primeira vez entrada uma proposta de resolução imanada pela presidente (Elisa Damião) da comissão de trabalho, solidariedade, segurança social e família, 17 Outubro 1996, em que propõe o dia 26 Julho como o Dia Nacional dos Avós.

Desconhece-se a razão no muito reservado do episcopado português que reunido em Aveiro para tratar de assuntos eclesiásticos quando se foi referido o tema sobre o dia de S. Joaquim e Sant'Ana para se tornar no dia dos avós, nada de concreto foi resolvido e segundo se apurou, somente três dos bispos presentes eram favoráveis a tal. Deve-se realçar o constante apoio que o episcopado da diocese do Porto dedicavaa Ana Elisa que com alguma frequência visitava, dando conhecimento de como o seu labor caminhava.

Continuava a caminhada e uma verdadeira mas cansativa luta. Muitas, mesmo muitas promessas de políticos mas tudo caia no esquecimento, constante adiamento (procrastinação)e o desanimo sobre todas
essas promessas, apareceu muito acentuado por esta altura. Minha mãe confessou-me que iria desistir de caminhar, todos aceitavam seu «processo», muitas dezenas, mas nada.

Eis que resolve nas suas cogitações levantar-se na noite abençoada como definiu e endereçar uma carta e Sua Santidade João Paulo II, onde explicava a sua luta e se Ele aceitava o dia como justo.

Passara-se uns tempos, não muitos e recebe através do Núncio Apostólico Português uma mensagem a ela dirigida pelo Papa, dando-lhe parabéns e força para que leve a bom fim sua caminhada..., foi como recebesse antídoto para reanimar e em força recomeçar a sua laboriosa tarefa.

Vai novamente a uma entrevista televisionada e nela refere esse facto vindo da Santa Sé. Aparecem jornais, rádios e canais de televisão a convidarem para estar presente. Recusou alguns e com toda a razão, pois quando os solicitou, deram como quase tudo em saco roto, mas foi uma grande ajuda a que recebeu do Vaticano, até as datas do dia começaram a ser mais evidenciadas, divulgadas e com enorme presença de avós portugueses.

Correu mundo dentro das suas possibilidades de mulher na casa dos setenta anos. Três viagens ao Brasil, França, itália, Espanha, Luxemburgo, recusando duas ou três mais longínquas, como por exemplo a
Timor. Nessas suas deslocações levava na bagagem a sua propaganda sobre o dia Mundial dos Avós que já pensava em tornar maior o seu sonho. Solicitava a muitas figuras publicas, actores, atletas, industriais, etc., que nas suas deslocações ao estrangeiro lhe levassem seus cartazes alusivos ao dia que queria e sonhava criar. Numa das suas deslocações ao Brasil, teve conversa particular com seu presidente Itemar Franco onde ele a felicitou e curiosamente, devido a esse facto, algumas rádios do Brasil falaram no caso e no labor que Ana Elisa desenvolvia para os avós do mundo.

Um enorme reparo que deve ser feito à iniciativa da lutadora Ana Elisa foi o factor comercial que no futuro talvez fosse dado ao Dia dos Avós. Dizia ela que isso era secundário, mas o que deve ser realçado é que os meios eclesiásticos somente no ano 2000 realizaram pela primeira vez, em Fátima, a festividade do Dia dos Avós! Seja que até por tal Ana Elisa serviu para alertar esses responsáveis que os avós portugueses e do mundo merecem ter um dia a si consagrado.

Tal como Mirian McQuade que nos anos setenta durante uma luta de alguns anos, conseguiu que o então presidente dos Estados Unidos (Jimmy Carter) assinasse a proclamação dedicado aos avós...

Traduzido

"Em 1973, McQuade
começou uma campanha popular para criar um dia especial em homenagem aos avós. Depois de meses a escrever cartas e telefonemas aos seus representantes locais e estaduais, ela encontrou ouvidos simpáticos no Senador de Estado Shirley Amor e senador dos EUA Jennings Randolph. Seus esforços
foram incansáveis e culminou em 1978 na assinatura da proclamação dia dos avós pelo presidente Jimmy Carter. "Assim como uma nação aprende e é reforçada pela sua história", disse Carter, em seguida, "assim que uma família aprende e é reforçada pela sua compreensão de gerações anteriores."
A partir de então, dia dos avós é celebrado todos os anos no primeiro domingo após o Dia do Trabalho."

Esta senhora além de ter visto reconhecida a sua laboriosa luta, foi escolhida por senados estaduais para ser responsável de diversos organismos inerentes a idosos e criou uma fundação de orientação social.

Sucedem-se o presidente Rui Silva que do mesmo modo acarinhou e se empenhou na colaboração e ajudas a Ana Elisa e nas realizações cada vez mais cuidadosas do Dia dos Avós. Durante este mandato foi agraciada pelo edil em sessão oficial de Câmara e em muitas presenças a convite quer pessoal quer
oficial a maioria de orientação cultural. Sucede-se novo presidente Alberto Santos. Do mesmo modo Ana Elisa continua seu périplo com o mesmo patrocínio e neste mandato é convocada para se deslocar a Lisboa, assembleia da república onde tem uma reunião com os presidentes de grupos parlamentares.

Mais tarde nova visita mas acompanhada pelo então presidente da câmara. Segundo ano do novo século. Contava já com setenta e seis anos. Recebe convite para se deslocar à suíça junto das comunidades portuguesas locais. Tenta preparar-se para essa tarefa mas recebe rejeição médica e então prepara
em vídeo conferência sua presença onde na qual como seu filho e sucessor da caminhada, também estive presente. Nota-se novo cansaço nas suas tarefas através do que escrevia. Sua saúde que nunca foi muita, começava a reclamar mais descanso e então dedicava-se a escrever quer poemas quer contos da sua
vida no passado de criança, jovem, mãe e esposa. (Cartas e rascunhos no site) e onde procurava colocar fotografias (galeria de fotos no site) de todos esses tempos.

Maio, 22 de 2003. Assinado pelo presidente da Assembleia da Republica Dr. Mota Amaral, é publicado no Diário da Republica a resolução 05/2003 que institui o dia 26 Julho como o Dia Nacional dos Avós, nos termos do nº5  do artigo 166º da Constituição da República Portuguesa.

Foi dia de festa na cidade de Penafiel-Portugal. Meados da manhã recebeu em sua casa uma chamada telefónica da então deputada Maria Ofélia Moleiro a qual lhe comunicava que apesar de não ser neta, era filha e mãe e desse modo transmitindo a boa nova... parabéns, seu dia foi oficializado !!!

Calculam-se cerca de 17 anos de luta árdua e pessoal visível e pública, não mencionando alguns outros anteriores onde já escrevia, conversava na rádio com sua Amiga D. Olga Cardoso e ouvintes, acerca do tema avós e netos. Nesse dia recebeu centenas de comunicações de pessoas amigas, alguns políticos,
responsáveis  da edilidade, diocese do distrito do Porto, etc..

Tinha terminado a Procrastinação traduzida em alguns milhares de fotocópias, (os processos), muitos milhares de kilómetros a favor da sua causa, centenas de pedidos particulares e oficiais.

Aproximava-se a primeira comemoração oficial do DIA NACIONAL DOS AVÓS - 26 JULHO